VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA
O texto abaixo foi reproduzido na íntegra, visando divulgar a carta de repúdio à revista Veja escrita por Ana Maria Araújo Freire. Desse modo, visa também ser solidária e mais uma voz discordante com a ausência de respeito ao educador brasileiro Paulo Freire.
Além disso, remeto o convite àqueles que desconhecem o legado de Paulo Freire a leitura atenta da Pedagogia do Oprimido, em especial.
Apresenta-se, assim abaixo:
Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem ‘O
que estão ensinando a ele?’, De autoria de Monica Weinberg e Camila
Pereira, baseada em pesquisa sobre a qualidade do ensino no Brasil. Lá
pelas tantas há o seguinte trecho:
‘Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que
em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro
argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações
positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram
personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental,
como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação
esquerdista disfarçado de alfabetização’
Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte
carta de repúdio:
‘Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra
Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE - e um
dos maiores de toda a história da humanidade -, quero registrar minha
mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo que a cada
semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas
de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua
postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em
favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente,
age em nome do reacionarismo desta.
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data:
enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar.
Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor,
mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a
primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o
obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram
todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do
mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta,
lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre
ética, certamente em favor da ética do mercado , contra a ética da vida
criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém
que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente
humanista.
Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que,
certamente para se sentirem e serem parceiras do ‘filósofo’ e aceitas
pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira
atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam
à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do
mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais
fracos.
Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má
apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão
continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às
bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato
humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe
média brasileira medíocre que tem a Veja como seu ‘Norte’ e ‘Bíblia’.
Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja
quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força
de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço
escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e
adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso
País, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou
religião.
Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista
Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores
escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a
sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da
autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo,
contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que
Paulo Freire Vive!
São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire’.


